quarta-feira, 19 de março de 2014

Chutando o Preconceito

Vítima de ofensas racistas no jogo contra o Real Garcilaso, no último dia 12 de fevereiro, pela Libertadores, o volante Tinga do Cruzeiro, que recebeu o apoio na luta contra o preconceito, resolveu assumir o papel de embaixador da causa e em parceria com a CUFA (Central Única das Favelas), do Rio Grande do Sul, lançará, em março, a campanha 'Chutando o Preconceito'.
O primeiro evento ocorrerá no dia 24 de março, em Porto Alegre, e contará com a presença do jogador como principal referência. O volante é um dos parceiros da CUFA há mais de dois anos e apadrinha o Torneio Bola Comunitária, que conta com a participação de crianças de comunidades carentes do estado natal do jogador.
A ideia surgiu depois dos lamentáveis episódios envolvendo torcedores peruanos, que imitavam sons e gestos de macaco a cada vez que o volante pegava na bola. Depois de toda a repercussão do episódio e o apoio de vários brasileiros nas redes sociais, inclusive de personalidades do esporte e da política, como a presidente Dilma Rousseff e ex-jogadores como Ronaldo e Roberto Carlos, o meio-campista virou um símbolo da luta contra o racismo.
Em uma conversa com Manoel Soares, jornalista da RBS e coordenador estadual da CUFA, os dois decidiram realizar o projeto utilizando o esporte e a figura de Tinga para combater o racismo. Segundo Paulo Daniel Santos, um dos coordenadores de pequenos projetos da entidade, a ideia é fazer eventos por todo o estado e, com o tempo, expandir pelo País.
'O Tinga sempre foi um parceiro da CUFA e amigo pessoal do Manoel Soares. Quando houve aquele ato de racismo a gente se mobilizou. A ideia é de criar um projeto para lidar com a questão do combate ao preconceito. Estamos criando esse movimento com o objetivo de diminuir o preconceito', disse.
'O primeiros será aqui no Rio Grande do Sul, mas a nossa ideia é criar espaços de debate para rodar todo o Brasil com essa ideia. Queremos aproveitar do esporte para disseminar esse pensamento e, ao menos neste primeiro evento, teremos a presença do Tinga como principal figura. O atleta tem algumas obrigações com o clube e tentaremos conciliar as agendas para os próximos', acrescentou.
A campanha já ganhou apoio dos companheiros de Tinga. Pelas redes sociais, os jogadores do Cruzeiro já aproveitaram para divulgar a campanha. O meia Marlone, o volante Lucas Silva e o lateral Mayke já postaram o cartaz do movimento em suas respectivas contas no Instagram. O zagueiro Paulão, do Internacional, que até pouco tempo estava no clube celeste com Tinga, também aderiu à causa e ajudou a divulgar na internet.
O caso de racismo envolvendo a torcida do Real Garcilaso ainda está sendo estudado pela Conmebol, que prometeu se posicionar ainda nesta semana e proferir uma decisão do julgamento. O clube acusado enviou documentos à Confederação Sul-Americana de futebol na última segunda-feira e aguarda pela sentença. Em sua defesa, alegou que nem mesmo o juiz e o delegado da partida citaram o fato e de que não há controle sobre a torcida por ter jogado em Huancayo. O clube peruano pode ser punido com multa de US$ 3 mil até a exclusão do torneio.

Jungle Favela tem sua primeira edição. Confira como foi esse grande evento!


O maior evento de MMA da América Latina, o Jungle Figth em nova parceria com a Central Única de Favelas – Cufa, realizou nesse sábado 8 de fevereiro a primeira edição do Jungle Favela, uma franquia do Jungle Figth exclusiva para moradores de favelas.

Com a participação das ring girls Anna Carolina e Érica Santos, vencedoras do concurso realizado pela CUFA no último mês, o evento foi transmitido ao vivo pelo Premiere Combate, contou com a presença de 1500 mil pessoas teve em seus card de lutas 14 lutadores nacionais e internacionais, divido em 7 lutas e aconteceu em Madureira, um dos redutos do samba carioca, sob o Viaduto Negrão de Lima.


Entre as 7 disputas tivemos como a principal a luta entre Dragon Ball Chito da Favela da Barranca na cidade de Lima – Peru contra o brasileiro Ceará da favela Beira Rio na cidade do Rio de Janeiro. Eles não fizeram apenas a principal luta, fizeram a melhor luta da noite. Disputa acirrada com bons golpes trocados, a vitória teve que ser decidida pelos árbitros de mesa. E a decisão veio a favor do brasileiro Ceará, que venceu por 2 x 1 em rounds o peruano.

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E até a próxima.



segunda-feira, 17 de março de 2014

TERRA, O PLANETA DOS MACACOS!



Celso Athayde lança campanha contra o racismo e engaja milhares de pessoas na Semana do Macaco

Celso Athayde, fundador da CUFA – Central Única das Favelas, chamou a semana que estamos em “a Semana do Macaco” e encontrou uma forma bastante criativa e bem humorada de chamar à reflexão um tema polêmico na sociedade, o Racismo.

Comparando as semelhanças entre a diversidade racial dos macacos e a diversidade étnica dos homens, Celso chamou a atenção para o fato de haver na natureza macacos brancos, pretos, marrons, amarelos e vermelhos assim como há homens louros, negros, morenos e pardos, botando uma lente de aumento na constatação de que todos, brancos, indígenas ou negros, guardamos semelhanças com nossos ancestrais primatas, não havendo razão para a associação do animal apenas ao negro e, sobretudo, para os tristes cenários de racismo que ainda se observa no Brasil.  

Sucesso absoluto na internet, a campanha teve a adesão de milhares de pessoas que, em apoio, trocaram suas fotos de perfil pela de um macaco de características semelhantes às suas e utilizaram as hashtagas #SemanadoMacaco e #NaoaoRacismo . Ainda pelo caráter lúdico da proposta, a campanha teve um enorme apelo também entre as crianças que tiveram a chance de ser introduzidas ao tema de uma maneira bastante criativa e reflexiva.

Com o fim da Semana do Macaco, a campanha encerra-se neste domingo, dia 16/03, às 17 horas, com uma grande celebração contra o racismo na Estrada Intendente Magalhães, Madureira-Campinho , Rio de Janeiro. Na festividade, que contará com um desfile da escola de samba Portela, os componentes prometem fazer um grande abraço no desfile e  se caracterizar como macacos, pintando seus rostos.

Mas se a campanha se encerra no domingo, a conscientização em favor da igualdade social segue firme na luta contra o racismo. Como desdobramento da campanha, os alunos da Escola Municipal Mário Fernandes Pinheiro, em Campo Grande, Rio de Janeiro, farão na próxima segunda-feira, 24/03, às 14 horas, uma exposição de suas “identidades primatas”, como resultado da pesquisa sobre macacos que tivessem aparência semelhante às suas, proposta pela Professora Verônica Marcílio, baseada na campanha #SemanaDoMacaco.

Para mais informações sobre a Campanha do Macaco visite www.cufa.org.br

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Sarau LiteraRua Edição de Natal

Aconteceu no dia 19/12/13 a prévia do Sarau LiteraRua na sede do Avai na comunidade Portinho contamos com uma doação, a pessoa prefere o anonimato, essa doação garantiu um natal mais feliz para 100 crianças que receberam além de brinquedos, cachorro quente, refrigerante a visita do papai noel e do MC Eltin que estava na cidade para um show e fez questão de visitar a ação na comunidade.





Isso foi apenas um aquecimento para o que ainda estava por vim no Sarau LiteraRua que aconteceu dia 22/12/13, as crianças se divertiram nos brinquedos de recreação, com a pintura facial, além da visita do papai noel que distribuiu livros , doces, cachorro quete e refrigerante.

Varal de poesias



A tarde foi regada com poesias, muito Rap no comando das pick up’s DJ LM junto com Zinho Beats, tivemos ainda os shows dos artistas Chubazada Crew, DS, E.V, Elipê, B15, Salmus seção de free style.

Dentro do evento ainda aconteceu o Trilhando Cores onde os grafiteiros de Florianópolis Vejam, Diant, Japão e Wags revitalizaram e humanizaram através da arte do Graffiti o muro dos fundos do campo do Avai que fica no beco que liga as Ruas do Avai e Capitão Donner.

Como estava o local

Muro recebendo o fundo






“Nossa intenção é levar a arte e a cultura até as comunidades em vulnerabilidade social e interagir com os moradores, a arte e os artistas.” Diz Vinícius Lauffer Diretor Executivo da CUFA Laguna.


Agradecemos além do público de prestigiou os eventos a direção do Avai pela grande parceria, além do CMDCA (Conselho Municipal dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes) que patrocinou o Sarau que contou ainda com o apoio da Fundação Irmã Vera (Presidente Karmensita Cardoso), Fundação Lagunense de Cultura (Presidente Leonardo Pascoal), Pousada Mar Grosso (Peterson Crippa “Preto”), Ironlak Brasil, Demanda e Monkey Comunicação.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Fórum Nova Favela Brasileira confira como foi o primeiro dia

Comemorando o dia nacional da favela, Celso Athayde, fundador da Central Única das Favelas, abriu o fórum NOVA FAVELA BRASILEIRA contando ao público sobre sua incrível trajetória de vida. Celso ressaltou a parceria com grandes empresários, o nascimento da F Holding e o lançamento do DATA FAVELA,  o primeiro instituto de pesquisa especializado nos moradores de favelas do Brasil.
Na sequência, Renato Meirelles, sócio do Data Popular e um dos fundadores do DATA FAVELA , iniciou sua apresentação contando sobre a parceria com Celso Athayde na criação do instituto e na realização da pesquisa com mais de 2000 moradores de favelas do Brasil.  De acordo com a pesquisa, a evolução das favelas nos últimos 10 anos foi crescente e embora a falta de investimentos por parte do governo ainda seja preocupante, a projeção para os próximos anos são animadoras.


Para o painel, “Favela Brasileira Encontro de Olhares”, foi convidado ao palco o Ministro da Saúde Alexandre Padilha que palestrou sobre o programa “Mais Médicos” do governo federal, enfatizando a repercussão do programa na sociedade. Ato contínuo, Luís Fernando Nery, diretor de comunicação da Petrobras foi convidado para falar sobre os projetos que a empresa desenvolve nas favelas brasileira, especialmente o projeto “ Me inspira”.
Dando sequência à série de palestras, foi aberta a mesa de debates para abordar a favela pela favela. A mesa contou com a participação de Lázaro Ramos, Mv Bill, Jailson Silva e mediação da jornalista Flávia Oliveira.


Depois do almoço, Renato Meirelles retomou as atividades do Fórum dando continuidade aos resultados obtidos pela pesquisa realizada pelo DATA FAVELA. Para abrilhantar a palestra, Luiz Barreto, presidente do SEBRAE e patrocinador do evento, falou sobre empreendedorismo na favela e suas oportunidades de negócio. Em seguida, Gabriela Onofre, diretora de comunicação da P&G, palestrou sobre seu trabalho a frente da empresa bem como sobre sua parceria com a Central Única das Favelas em grandes ações sociais como “Taça das Favelas” e “Top Cufa”.

Mais tarde, foi a vez de tratar sobre o delicado tema da criminalidade das favelas e o sistema prisional. O foco foi a falta de segurança pública que sempre foi um problema na nossa sociedade. Foi abordado pelo Secretário de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro, o Coronel Cesar Carvalho, a grande ocorrência de negros e pobres na população carcerária. Para debater sobre estes e outros assuntos relacionados, foram convidados o Desembargador do Tribunal Regional de Justiça do Rio de Janeiro, Doutor Siro Darlan, e o antropólogo e escritor Luiz Eduardo Soares.

Após o debate, teve inicio uma série de palestras sobre negócios inclusivos e desenvolvimento social por vias econômicas com os empresários Elias Tergilene, Sergio Gagliardi e Laércio Cardoso.
Após o intervalo para o coffee break, foi a vez do painel “Cultura nas Favelas” com a presença de personalidades como o cineasta Cacá Diegues e o cantor e compositor Dudu Nobre, que dividiram com o público histórias incríveis sobre suas trajetórias e carreiras, além da crescente expressão no cenário cultural das favelas, que inclui música, cinema e todo tipo de arte.

Uma das presenças mais esperadas do fórum, foi a da atriz e apresentadora Regina Casé, que dividiu com a plateia curiosidades e experiências sobre suas viagens pelo mundo e posteriormente promoveu um talk show com Cacá Diegues, Dudu Nobre, Elias Tergilene e os fundadores do DATA FAVELA, Renato Meirelles e Celso Athayde.


Para finalizar esse grande evento, um maravilhoso pocket show com Dudu Nobre e a Banda Batuk que animou a plateia.
E o fórum NOVA FAVELA BRASILEIRA volta amanhã, dia 05/11/2013, no Espaço CUFA localizado sob o Viaduto Negrão de Lima, em Madureira. 
Fica ligado!

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

BEYONCÉ FAZ SURPRESA PARA OS JOVENS DA CUFA



Neste domingo (8), em Fortaleza, foi o primeiro show da turnê brasileira da cantora. Mas antes de subir no palco e mostrar todo o seu carisma, Beyoncé e sua equipe de bailarinos fizeram uma surpresa para os adolescentes da CUFA, do bairro de Lagamar. O jovens estavam acompanhados do Presidente da CUFA, Preto Zezé.
O grupo que já participa do projeto de dança da CUFA foi convidado para assistir ao show e participar da coletiva da cantora. Também conheceram os bastidores, subiram no palco e visitaram o camarim da Beyoncé.
Até aí já era um sonho para esses jovens. O que eles não esperavam era conhecer Beyoncé de perto com direito a uma conversa descontraída, animada e muitas fotos para guardar de recordação. Isso aconteceu em um encontro fechado com muita emoção e diversão. O grupo era só sorrisos.
E essa parceria promete. No site da cantora, no local destinado aos projetos sociais, a CUFA já está presente. Certamente uma amizade que não para por aqui.



sexta-feira, 10 de maio de 2013

Conheça o Setor F – por Celso Athayde


Desde que me entendo por gente e mesmo não sendo um grande conhecedor em economia, minha experiência como camelô vem me mostrando que o modelo empresarial no Brasil tem sido o responsável direto por muitos dos problemas sociais que vivemos. Chegar a essa conclusão não é difícil. Imagino que  todos os líderes sociais, intelectuais, políticos, religiosos, empresariais, assim como os ”buchas” de todos os setores também concordam com isso.  O ponto central dessa questão é: quais as sugestões e alternativas temos para apresentar? Percebo que, ao longo dos anos, a Economia Social vem ganhando bastante expressão. Seus objetivos passam necessariamente pela solidariedade e pelo desenvolvimento integrado da comunidade. Ela tem contribuído muito com o Estado em suas ações e infelizmente até o substitui, em alguns casos extremos. Mas é claro que esse não é o seu papel. Acredito que a função principal seja a de construir alternativas e, até no limite, ser um prolongamento do Estado na implementação de suas políticas sociais. Em síntese, a Economia Social é o que transforma os valores e até os costumes de um ambiente e muda a vida das pessoas em um país capitalista.

Pensando nisso, quero propor um novo debate para esse momento, um novo pensamento na direção da economia da favela, que estou batizando de Setor F. O assunto merece atenção no que diz respeito ao fenômeno de renda dos moradores desse setor. O PIB de muitos países, o da Bolívia, por exemplo, é menor que o volume do movimento da economia das comunidades brasileiras. É importante perceber que não estou falando somente das periferias, e, sim, das favelas, que existem inclusive nas periferias. Caso contrário, esse número seria muito maior e estaríamos falando em quase 70% da população.  É hora de  todos atentarem para esse “velho” Setor F: os do asfalto ou os das favelas. Esse exercício serve, inclusive, como um dos caminhos para demover o preconceito. Até aqui, os argumentos que muitos usavam para não se aproximarem das favelas foram a geografia complexa dos terrenos, que dificulta o acesso e demanda supostos grandes investimentos, ou o receio do poder paralelo. O fato é: precisamos  promover o encontro dos empreendedores desses dois mundos! Precisamos definitivamente assumir o desafio que é a geração de um valor compartilhado em que podemos revolucionar a administração, gestão e o planejamento dessa economia considerada ainda por muitos como  paralela, por ser parte de um ambiente que tem uma cultura própria e seus próprios códigos de existência e desenvolvimento. Esse território que pulsa economicamente e que exige investimentos e legalidade plena. Esse mundo que quer ser incluído em todos os seus aspectos, e assim transpor todas as fronteiras que ainda existem.

Para provar que é perfeitamente possível, acabamos de criar a Favela Participações S/A (Favela Holding), um grupo integrado por 20 empresas que tem o foco de atuação nas favelas brasileiras. Trata-se se uma sociedade entre a Favela Holding e grandes empresas dos mais diversos setores. Essa sociedade dará vida a empresas de eventos, agência de viagens, publicidade, MMA, shoppings, fábricas de móveis, editora, instituto de pesquisa, distribuidora, expansão de negócios e mídia, só para citar algumas.  A ideia central é que o empreendedor tenha a real percepção do retorno financeiro que essas comunidades irão trazer para o seu investimento. Em contrapartida, quero que o morador da favela tenha oportunidade de ser visto pelos empresários como protagonista desse processo de construção compartilhada. Ou seja, como sócios, de fato. Isso será feito pela primeira vez nessa relação comercial. Para que esses moradores possam executar esse papel de protagonismo, deverão se preparar para co-gerenciar seus negócios, para gerar lucros e para manter esse lucro dentro da própria favela, com o objetivo de promover uma melhor qualidade de vida ao lugar.  Alguns parceiros já começaram a colaborar com esse processo de formação, como Fundação Dom Cabral e SEBRAE-RJ.

Acredito que a grande revolução brasileira será o avanço da economia nas favelas, uma sociedade de 12 milhões de pessoas. Do contrário, alardearemos que somos a sexta economia mundial, comemoraremos em breve que alcançamos a terceira, mas, se as favelas não se desenvolverem, só aumentaremos a distância entre o Brasil que cresceu  e o outro Brasil que sucumbiu.

Exatamente por isso, resolvi investir em uma nova lógica de trabalho. O objetivo não é fazer nenhuma reparação ao trabalho que fiz com a CUFA até aqui, pois se tivesse que fazer novamente, eu faria exatamente a mesma coisa. Deixamos a CUFA como a instituição de maior capilaridade do país e uma das mais respeitadas que conheço. Mas, por outro lado, é preciso refletir o quanto é importante as organizações não virarem apenas um balcão de projetos. As ações não podem existir somente para fortalecer o ego das organizações e de seus líderes. Penso que um movimento social deve ser pautado pelo desenvolvimento dos coletivos, sejam eles parte ou não dessas organizações, sobretudo quando os recursos são públicos. Isso não é nem de longe uma crítica ao que foi possível fazer até aqui, afinal, nem sempre escolhemos as formas. Muitas das vezes, nos limitamos a seguir o fluxo.

A decisão de deixar a gestão da CUFA, apesar de me engajar em um projeto comercial que tem a mesma direção, pode não ser visto de forma natural por algumas pessoas. Novidades, sejam elas em que âmbito forem, sempre geram espantos.  Mas, enquanto eu viver, serei um inquieto que tentará se divertir surfando no olho do furacão. Precisamos seguir novos rumos, trilhar na direção do que acreditamos. E claro, continuar pagando o preço por sermos vanguarda em muitas ações. Lembro, por exemplo, de quando fizemos o primeiro grande show em uma favela no Rio, talvez no Brasil. Foi na Cidade de Deus, no ano de 2000, mais precisamente em uma noite de Natal. Produzimos um mega show, com direito a muitas lágrimas dos artistas e do público. Um encontro memorável entre a Cidade de Deus e Caetano Veloso, Djavan, Dudu Nobre e Cidade Negra. A mídia fez desse histórico acontecimento um caso de polícia. Mesmo assim, o fato possibilitou a leitura da sociedade e do poder público de que a favela também era um lugar onde os grandes eventos culturais pudessem e devessem ser realizados. Até hoje, fazemos grandes eventos em favelas, com parceria de muitos que nos criticaram na época. O importante disso tudo é constatar que, hoje, outros tantos parceiros fazem esse tipo de ação e com sucesso. Outro caso emblemático foi quando fizemos o filme  e o livro ‘Falcão: Meninos do Tráfico’. Lembro que, apesar de ter recebido prêmios em mais de 20 países, de ter recebido as homenagens mais importantes do país, o Bill e eu também fomos processados e acusados de fazer apologia ao crime e associação ao tráfico. Resistimos a tudo e seguimos em frente.

Felizmente, hoje essa resistência é reconhecida como um marco que possibilita muitas organizações e pessoas a se comunicarem com as favelas das mais variadas formas e até mesmo com o tráfico, com o objetivo de mediação de conflitos. Foi assim, em 2001, quando fizemos o primeiro projeto de formação de agentes da lei. A CUFA, em parceria com o Ministério da Justiça, qualificou guardas municipais para melhor se relacionarem com os jovens das favelas.
Eu poderia citar muitos outros momentos em que fomos considerados vanguarda na relação com comunidades, mas isso já passou e o futuro é o que nos desafia. Em nome desse desafio, lancei mão dessas relações para criar essa que é a primeira holding de favelas do mundo: a Favela Participações S/A.

Quero trazer à tona a discussão sobre a economia da favela, o Setor F: uma discussão sobre o que acredito ser a receita ideal do bolo capitalista, com muitos ingredientes dessa nossa economia social e compartilhada. Baseado no que construí, nas idéias que propaguei, em tudo o que acredito, e vindo de onde vim, eu precisava criar mecanismos para que o nosso desenvolvimento como conjunto fosse viável. E é aí que trago essa reflexão para essa nova mentalidade.

É importante que esses grandes empresários pensem além dos recursos disponíveis nas favelas. É preciso pensar no desenvolvimento de seus moradores, tanto para promover a empregabilidade em massa quanto o empreendedorismo. Para que os habitantes das favelas alcancem esse objetivo, antes de tudo, é preciso que os empresários percebam que uma sociedade entre eles seria mais do que um modelo que revolucionaria a economia das favelas. Deveriam considerar que seria o único modelo sustentável e que jamais foi testado coletivamente.

Para destacar os efeitos do Setor F, vou lembrar um pouco dos outros três setores. O primeiro setor: o privado capitalista, com fins lucrativos. O segundo: o setor público, que visa satisfazer o interesse geral da população. E o chamado terceiro setor, que é parte integrante da  Economia Social e está ligado à economia solidária. Na esfera dessa Economia, estão o associativismo, o cooperativismo e o mutualismo como formas de organização da atividade produtiva. Mas é importante pontuar algumas semelhanças e diferenças entre esse novo Setor F e o terceiro setor, que é uma categoria que traduz certas práticas que podem ser aplicadas em qualquer lugar. O Setor F não. Esse é bem específico: focaliza territórios chamados favelas (chamados pelo IBGE de aglomerados sub normais). O terceiro setor combina geração de lucro com benefícios sociais. O Setor F faz dessa combinação um projeto de afirmação política e cultural de comunidades. Acredito que as favelas se tornarão mais poderosas, em todos os sentidos, e mais capazes de pensar criticamente sobre si mesmas e sobre o país, na medida em que passarem pela experiência educativa, de aprendizado e desenvolvimento, e de tornarem-se protagonistas de um processo de interesse pessoal e coletivo. Visto por esse prisma, o Setor F se torna qualitativamente diferente do terceiro, porque o todo é maior do que a soma das partes. Por isso, o Setor F não é apenas a soma do terceiro setor mais cultura e política. Ele converte-se em outro tipo de experiência coletivaIsso impacta a própria dimensão econômica do que se chama Setor F, porque, se é preciso pensar o significado político e cultural de cada empreendimento, a avaliação não pode ser apenas econômica e social, como seria naturalmente no terceiro setor, do qual eu faço parte há quase 20 anos.

Daí a ideia de um shopping. Um shopping é um grande símbolo capitalista que pode ser apropriado e ressignificado, mantendo vários de seus aspectos clássicos como: lojas de marca, escadas rolantes, ar condicionado, praças de alimentação e um astral imponente. Nesse novo modelo, esse mesmo shopping pode construir novos aspectos também, como a presença das lojas locais que vão derramar produtos fabricados na própria favela, a exposição das mais diversas artes consumidas na comunidade ou ainda a relação entre seus próprios pares, na medida em que o ponto chave estará na relação entre os vendedores e clientes da própria favela, eliminando os históricos preconceitos. Outro ponto é a relação entre fraqueado e franqueadores, já que as marcas só garantem espaços no Favela Shopping se for via Franquia Social, ou seja, o franqueador investe em um empreendedor da favela, por ele identificado. Se por um lado haverá um investimento social ao ofertar a franquia, por outro haverá um ganho por muitos anos nesse mesmo espaço inovador. Para que esse modelo – de Franquia Social – seja aplicado, será preciso um processo de formação, qualificação e acompanhamento da gestão pelos que têm experiências em seus respectivos ramos de atuação. Mais do que isso: 100% dos funcionários do empreendimento deverão ser moradores da favela. Isso vai melhorar a qualidade de vida da população já que, além desses trabalhadores estarem menos tempo em trânsito, portanto mais tempo com seus familiares, o projeto vai gerar renda local e fazer com que esses valores permaneçam ali. Mas não paro por aqui. Como se não fosse bastante esse impacto positivo na economia da favela, outro aspecto, no caso dos shoppings, é a obrigatoriedade da criação de um projeto visual para todo o comércio no entorno do empreendimento, além de oferecer cursos de negócios para todos os comerciantes locais, visando o desenvolvimento dos interessados. Até mesmo o Estado tem a chance de pensar incentivos para estimular a o crescimento  de empreendedores nessas comunidades.

Estou convicto de que estamos iniciando um processo empreendedor jamais visto! O tempo nos mostrou que nenhum desses setores foi capaz de resolver, ou mesmo entender, as mais diversas dimensões da economia das favelas. O grande ensinamento que fica e a grande reflexão que todos devemos fazer é: ou dividimos todas as riquezas que todos nós geramos, ou, infelizmente, seremos obrigados a continuar convivendo  com as consequências da miséria que os concentradores de renda têm gerado ao longo da história. E todos temos a chance de mudá-la. A hora é agora!


CELSO ATHAYDE
Diretor executivo da Favela Participações S/A